Os portões estão ainda fechados, o recinto está vazio. No chão vêem-se vestígios das noites passadas. Dos copos das bebidas restaram apenas pequenos pedaços de plástico que brilham à luz dos candeeiros. Caminham, de um lado para o outro, jovens carregando bidões de cerveja, nos últimos preparativos das suas barracas. Do céu chega uma escuridão que parece vir ameaçar a derradeira noite da Queima das Fitas do Porto.
Do outro lado dos muros, ouve-se a multidão que aguarda a abertura dos portões. O bilhete marca a entrada para as 22 horas, mas já ninguém espera que isso realmente aconteça. Do lado de dentro da entrada, forma-se um grupo de pessoas que faz lembrar as esperas dos familiares nos cais de chegada dos aeroportos. Aguardam os amigos que entram pela via normal. Alguma mão amiga os pôs certamente lá dentro, sem necessidade de bilhete. É então que, por volta das dez e meia, os portões abrem e a multidão entra. Começa assim o fim das Noites da Queima das Fitas do Porto.
Esta noite reserva Oioai e Xutos & Pontapés − contraste de estreantes com veteranos. Os Oioai são uma banda recém-formada, com um estilo musical algo peculiar. Pedro Puppe e João Neto na voz e guitarras, Fred na bateria e Nuno Espírito Santo no baixo deram à luz Oioai. “Sushibaby” é o seu primeiro single, uma música de amor, como se orgulham de lhe chamar. “Jardim das Estátuas” também já toca nas rádios e já entrou no ouvido de muita gente, como se comprova durante o concerto.
Apesar disso, a maior parte aguarda ansiosamente pela banda do Zé Pedro e do Tim para animar a noite. Os “Xutos” são a principal motivação das mais de 50 mil pessoas que se encontram no queimódromo, neste sábado à noite. Lá no meio do público alguém reclama: “Oh pá, venham mas é os Xutos!”.
Depois de uma preparação cuidada do palco, própria de uma verdadeira banda de rock, os Xutos & Pontapés dão início ao concerto com o seu habitual vigor. No écran por trás da banda, passam imagens
do seu percurso ao longo de 24 anos.
Novamente a mesma voz se faz ouvir: “Se chover é que o concerto vai rebentar!”. E realmente há quem concorde. Miguel Fernandes, estudante da Faculdade de Engenharia do Porto, considera que “a chuva só ajudou o pessoal a soltar-se e a saltar cada vez mais”.
Como era de esperar, os Xutos & Pontapés levam, uma vez mais, o público ao rubro com músicas como “Para ti, Maria”, “Quero-te Tanto”, “Chuva Dissolvente” ou “Minha Casinha”. Esta última, que coincide com o exacto momento em que começa a chover torrencialmente, parece ter sido o grande momento da noite para muitos. “Foi mágico, lindo e nostálgico”, acrescenta o mesmo estudante da FEUP.
Se para uns a chuva anima a festa, para a maior a parte o primeiro instinto é correr para o abrigo mais próximo. Nos carrinhos de choque, nas roulotes do pão com chouriço, na tenda do Cinejazz…por todo o lado as pessoas apinham-se, acotovelando-se por um espaço em que não chova. Pontualmente vêem-se manchas de cor movendo-se calma e despreocupadamente − são muito poucos os que não esqueceram o guarda-chuva.
Hugo Soares, estudante da Escola Secundária de Valongo, diz ter sido um bom concerto, o dos Xutos & Pontapés. “Foi pena terem demorado tanto a tocar as músicas que o público mais gosta; só começaram no final quando o pessoal estava a abrigar-se. A chuva estragou tudo.”
Sente-se no ar uma mistura de aromas. A terra molhada confunde-se com a massa quente dos gauffres e com as pipocas. Se não existisse a enorme barraca da SuperBock, qualquer um poderia recuar no tempo e sentir-se tal qual uma criança na feira popular, envolta em luzes de néon e em músicas de carrosséis.
Para alguns, o corpo molhado e o fim dos concertos encaminham-nos directamente para a saída. Para outros, é só o início da noite. A chuva só veio trazer uma pitada de adrenalina. As barracas das bebidas estão à espera. Segurando o copo na mão, Pedro Moreira, estudante do Instituto Superior da Maia, envolvido na organização e logística das Noites da Queima, confirma: “Não há Queima sem cerveja!”.