Nápoles, o berço da pizza! Pouco mais teria a dizer sobre esta cidade italiana. Descobrir Nápoles é descobrir o bom e o mau do sangue mediterrânico. De facto, há alturas em que, para uma tripeira de gema como eu, se sente alguma familiariedade, quando se pisa o solo napolitano. Uma cidade portuária, ruas estreitas e sinuosas…e depois o ar…de alguma forma se respira aquele frenesim latino.
De súbito (como tudo o que acontece em Nápoles), algo nos lembra que estamos em Itália e, curiosamente, não nos surpreende. Poderia deliciar-me durante longas horas com o comportamento dos taxistas italianos que se degladiam por um cliente...é fascinante descobrir que não fui enganada pelo estereótipo: afinal eles sempre fazem aquele gesto em que as pontas dos dedos se tocam e a mão se agita de cima para baixo e de baixo para cima enquanto o orador demonstra um estado de irritação aguda!
Atravesso a cidade de carro, de olhos arregalados (e juraria que de boca aberta). Por lá, ouvi alguém a dizer “Em Espanha os sinais luminosos são obrigatórios; em Itália são facultativos”. É certo que em Itália são facultativos, mas poucos são os que optam pela faculdade de lhes obedecer. Nápoles é o caos! Em linguagem poética: a apoteose da anarquia. Até hoje guardei a minha perspectiva algo pitoresca de Nápoles. Não, não desconhecia a fama da máfia napolitana, mas o Marlon Brando conseguiu sempre preservar em mim uma ideia tão simpática da máfia…e depois, enfim…a palavra vulgarizou-se: “ah seu mafioso!”.
Só ontem, num artigo do Público, me apercebi da dimensão da máfia napolitana, Camorra, segundo consta cinco vezes maior que a máfia siciliana, Cosa Nostra. O artigo veio no seguimento da detenção de 171 pessoas em Nápoles envolvidas no crime organizado, feito que parece ter sido conseguido com a colaboração de um ex-chefe da máfia, alegadamente arrependido. O que mais me interessou foi o impacto desta rede criminosa na vida da população napolitana.
Roberto Saviano, depois de publicar um livro sobre a máfia italiana em que denuncia a violência gerada pela mesma nos últimos anos, tornou-se num alvo a abater, tal como o foi o padre Don Giueseppe Diana ou os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino. Com taxas de educação que o Público diz estarem ao nível de África, graves problemas de desenvolvimento social e desemprego crónico, Nápoles é a principal praça europeia da droga e o local ideal para qualquer interessado em lavagem de dinheiro. Qual anarquia qual quê! A Camorra é o governo de Nápoles.

