domingo, 27 de maio de 2007

Queima molhada, Queima abençoada

Os portões estão ainda fechados, o recinto está vazio. No chão vêem-se vestígios das noites passadas. Dos copos das bebidas restaram apenas pequenos pedaços de plástico que brilham à luz dos candeeiros. Caminham, de um lado para o outro, jovens carregando bidões de cerveja, nos últimos preparativos das suas barracas. Do céu chega uma escuridão que parece vir ameaçar a derradeira noite da Queima das Fitas do Porto.

Do outro lado dos muros, ouve-se a multidão que aguarda a abertura dos portões. O bilhete marca a entrada para as 22 horas, mas já ninguém espera que isso realmente aconteça. Do lado de dentro da entrada, forma-se um grupo de pessoas que faz lembrar as esperas dos familiares nos cais de chegada dos aeroportos. Aguardam os amigos que entram pela via normal. Alguma mão amiga os pôs certamente lá dentro, sem necessidade de bilhete. É então que, por volta das dez e meia, os portões abrem e a multidão entra. Começa assim o fim das Noites da Queima das Fitas do Porto.

Esta noite reserva Oioai e Xutos & Pontapés − contraste de estreantes com veteranos. Os Oioai são uma banda recém-formada, com um estilo musical algo peculiar. Pedro Puppe e João Neto na voz e guitarras, Fred na bateria e Nuno Espírito Santo no baixo deram à luz Oioai. “Sushibaby” é o seu primeiro single, uma música de amor, como se orgulham de lhe chamar. “Jardim das Estátuas” também já toca nas rádios e já entrou no ouvido de muita gente, como se comprova durante o concerto.

Apesar disso, a maior parte aguarda ansiosamente pela banda do Zé Pedro e do Tim para animar a noite. Os “Xutos” são a principal motivação das mais de 50 mil pessoas que se encontram no queimódromo, neste sábado à noite. Lá no meio do público alguém reclama: “Oh pá, venham mas é os Xutos!”.

Depois de uma preparação cuidada do palco, própria de uma verdadeira banda de rock, os Xutos & Pontapés dão início ao concerto com o seu habitual vigor. No écran por trás da banda, passam imagens do seu percurso ao longo de 24 anos.

Novamente a mesma voz se faz ouvir: “Se chover é que o concerto vai rebentar!”. E realmente há quem concorde. Miguel Fernandes, estudante da Faculdade de Engenharia do Porto, considera que “a chuva só ajudou o pessoal a soltar-se e a saltar cada vez mais”.

Como era de esperar, os Xutos & Pontapés levam, uma vez mais, o público ao rubro com músicas como “Para ti, Maria”, “Quero-te Tanto”, “Chuva Dissolvente” ou “Minha Casinha”. Esta última, que coincide com o exacto momento em que começa a chover torrencialmente, parece ter sido o grande momento da noite para muitos. “Foi mágico, lindo e nostálgico”, acrescenta o mesmo estudante da FEUP.

Se para uns a chuva anima a festa, para a maior a parte o primeiro instinto é correr para o abrigo mais próximo. Nos carrinhos de choque, nas roulotes do pão com chouriço, na tenda do Cinejazz…por todo o lado as pessoas apinham-se, acotovelando-se por um espaço em que não chova. Pontualmente vêem-se manchas de cor movendo-se calma e despreocupadamente − são muito poucos os que não esqueceram o guarda-chuva.

Hugo Soares, estudante da Escola Secundária de Valongo, diz ter sido um bom concerto, o dos Xutos & Pontapés. “Foi pena terem demorado tanto a tocar as músicas que o público mais gosta; só começaram no final quando o pessoal estava a abrigar-se. A chuva estragou tudo.”

Sente-se no ar uma mistura de aromas. A terra molhada confunde-se com a massa quente dos gauffres e com as pipocas. Se não existisse a enorme barraca da SuperBock, qualquer um poderia recuar no tempo e sentir-se tal qual uma criança na feira popular, envolta em luzes de néon e em músicas de carrosséis.

Para alguns, o corpo molhado e o fim dos concertos encaminham-nos directamente para a saída. Para outros, é só o início da noite. A chuva só veio trazer uma pitada de adrenalina. As barracas das bebidas estão à espera. Segurando o copo na mão, Pedro Moreira, estudante do Instituto Superior da Maia, envolvido na organização e logística das Noites da Queima, confirma: “Não há Queima sem cerveja!”.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Teatro em Valongo

A Mostra de Teatro Amador de Valongo chegou ao fim. O evento, que contou com a participação de doze grupos de teatro do concelho, teve início a 3 de Março e encerrou a 4 de Maio, com a peça “Boca de Fogo”.

O espectáculo trouxe ao palco os alunos do Curso de Formação em Teatro, ministrado pelo ENTREtanto Teatro em colaboração com a Seiva Trupe. Com texto de Manuel Poppe e encenação de Júnior Sampaio, a peça retrata “uma viagem rápida e alucinante pela respiração, pelo amor, pelo sexo, pela família, pela arte, pela violência, pelo materialismo…numa passagem/reciclagem pela experimentação da vida”. O corpo torna-se meio de comunicação capaz de exprimir as inquietações mais profundas do ser humano. “Boca de Fogo” é um verdadeiro “convite à poesia dos sentidos”.

Júlio Cardoso, encenador da companhia de teatro Seiva Trupe, elogiou, no final do espectáculo, o desempenho e a inteligência criativa dos participantes. A assistir à peça encontravam-se ainda o próprio Manuel Poppe e Luís Pinto, representante da Câmara de Valongo, que se encarregou da entrega dos certificados de participação aos actores amadores. Assim se completaram, com “Boca de Fogo”, dez anos consecutivos de acções de formação do ENTREtanto Teatro.

O teatro tem sido, nos últimos anos, uma das grandes apostas da Câmara Municipal de Valongo. A companhia teatral ENTREtanto, que recebeu desde o seu início apoios da Câmara, é actualmente um elemento essencial para a dinamização cultural do concelho. Os números seguintes, retirados do site oficial da companhia, evidenciam o seu sucesso: 29 peças produzidas, 200.000 espectadores e 2000 espectáculos apresentados em mais de 100 localidades em Portugal e ainda noutros países como Moçambique, França, Espanha, Brasil e Cabo Verde. Graças às actividades do grupo de teatro, o nome de Valongo inclui-se já no circuito artístico nacional e internacional.

O grupo de teatro ENTREtanto nasceu em 1996, no seguimento de um Protocolo de Cooperação Cultural, estabelecido com a autarquia de Valongo. Desde então, a companhia rege-se por uma política cultural descentralizada. A Mostra Internacional de Teatro, que vem a ser organizada desde 1998 em conjunto com a Câmara de Valongo, é prova disso. O MIT não só divulga o teatro português, como também permite o contacto com tendências e ideologias de outras culturas.

A partir de 2002 a companhia começa a funcionar no Centro Cultural de Campo, um edifício concebido para a apresentação de espectáculos e ainda com uma área destinada a fins museológicos. É lá que será reposta a peça “Boca de Fogo”, de 28 de Maio a 3 de Junho, depois de estar também em exibição no Teatro do Campo Alegre, de 10 a 13 e de 15 a 20 de Maio.